Já tinha estado ali. Conseguia senti-lo em cada centímetro do meu corpo. A carpete bordô, as paredes imaculadamente brancas, as portas de madeira clara do lado esquerdo do corredor. Sim, já tinha estado ali. Contudo, sentia-me baralhada. Dirigi-me à janela mais próxima. Não via mais do que breu e névoa, do outro lado do vidro. Estava tudo tão calmo, tão silencioso, que quase parecia sinistro.
Não sabia como me orientar... havia luz suficiente para que conseguisse ver a última porta, ao fundo do corredor. Decidi então andar para trás. Fui avançando lentamente, sem saber onde estava ou para onde ia. O som dos meus passos era baixo e suave, mas era o único ruído que quebrava o silêncio. À medida que caminhava, a luz das lâmpadas fluorescentes tornava-se cada vez mais fraca. Carreguei no interruptor. Nenhum sinal de vida. A escuridão parecia apoderar-se de todo o corredor, e também de mim, que já começara a tremer.
Uma corrente de ar gelado fez os meus braços arrepiarem-se. Pouco depois, o silêncio foi quebrado. Ouvia mais passos e uma respiração ofegante. Tentei encontrar a origem do som, que se tornava cada vez mais próximo. Uma, talvez duas pessoas aproximavam-se rapidamente do local onde estava.
- Acalma-te. Já estamos quase a chegar... ela vai ficar bem.
A voz estridente de Sasha fez-me ficar sem um pingo de sangue. A minha Sasha. Ela conseguira. Tinha cumprido a promessa, tinha sobrevivido.
Corri ao encontro dela. Queria abraçá-la, perguntar-lhe como escapara. Não demorou muito até conseguir distinguir alguns contornos ténues no meio da sombra. Mas fiquei petrificada, ao ouvir uma segunda voz. Um som inconfundível, que eu reconheceria em qualquer lado.
- Acalmo-me?! Estás doida? Já olhaste bem para ela?! – nunca o ouvira a falar assim. A voz estava trémula, mas tão carregada de raiva...
Quando finalmente os consegui ver, as expressões duras e nervosas fizeram-me perder a fala. Tyler quase corria, em direcção ao fundo do corredor. Carregava alguma coisa nos braços. Não quis acreditar quando percebi do que se tratava. Os braços e pernas da rapariga pendiam, pálidos, contrastando com o vermelho vivo do vestido e os cabelos escuros caiam soltos, tapando-lhe a cara.
- Vá lá... não me faças isto. – a fúria dele transformara-se agora numa súplica murmurada.
- Ela vai ficar bem, vais ver. Ela vai ficar bem... – garantia Sasha. No entanto, o rosto dela contorcia-se sempre que olhava para o corpo da rapariga, que continuava inanimada nos braços fortes de Tyler.
Corri ao encontro deles, na esperança de poder ajudar, ou de perceber o que se passava.
- Quem... quem é ela? O que é que aconteceu? Sasha... explica-me...
Aproximei-me deles, para os acompanhar, mas eles limitaram-se a passar por mim sem sequer repararem na minha presença. Confusa, segui-os.
- Tyler, Sasha. O que é que se passa? Quem é essa rapariga?!
Mas nada se alterou. Eles apenas continuaram a avançar, a passos largos e rápidos, sem responderem às minhas questões.
O olhar de Tyler perdera todo o brilho, parecia vazio. Limitava-se a dançar entre o corredor e a cara da rapariga débil.
- Por favor... tens de sobreviver...
Olhei mais uma vez para ela, desta vez com mais atenção. A pele tinha um tom esbranquiçado que não parecia saudável. Reparei nos braços, cheios de cortes e raspões. Uma mancha vermelha escura alastrava-se na zona da barriga.
Sasha tocou-lhe na face, com cuidado.
- Tyler, ela está a ficar fria, temos de ser mais rápidos... – sussurrou enquanto afastava os cabelos negros da face pálida.
A partir daí tudo aconteceu em fracções de segundo: e eu finalmente percebi. Aquela era eu. Deitada nos braços dele, ferida, frágil, moribunda...
- Emma, não me faças isto. Não desistas!
Mas eu já desistira. E agora só sentia uma lágrima silenciosa a roçar na minha face, enquanto tudo o resto desaparecia à minha volta.
2 comentários:
Que livro é esse? :)
Bem... é o meu.
Por enquanto não gosto de chamar-lhe livro, apenas algo que estou a escrever.
Prometo ir publicando mais alguns excertos à medida que for trabalhando nele. (:
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